A revolução do 25 de Abril de 1974 trouxe a Portugal Liberdade, pondo fim a um longo período de Ditadura fascista de 49 anos. Após 1976 houve retrocessos graves no processo desta revolução, patrocinada por partidos reaccionários de direita tendo como aliados algumas famílias Fascistas. Portugal foi caminhando o trilho de uma sociedade capitalista, geradora de profundas injustiças sociais.



Neste blog iremos denunciar os sistemáticos atentados que todos os dias ocorrem às Liberdades, Direitos e Garantias que herdámos de homens e mulheres que lutaram para que fosse possível o maior acontecimento histórico do século xx em Portugal.



segunda-feira, 22 de março de 2010

Lembrar Abril, Trinta anos depois alguem escreveu!

"Filhos de Abril": Deixamos aqui um texto, de um Camarada que faz falta! 

O 25 de Abril, todos os dias Para ser absolutamente sincero - e não faz sentido que dialoguemos com o leitor a não ser numa base de absoluta sinceridade -, começo a ficar farto desta comemoração de apenas um dia, e ainda mais farto dos pedidos que me fazem para escrever um textozito a propósito. Para o 1º de Dezembro, ninguém me pede nada; o mesmo para o 5 de Outubro, e até para o 1.º de Maio. Mas quando se aproxima o 25 de Abril, é um autêntico corrupio! então este ano - talvez porque 30 anos já conferem ao aniversário a respeitabilidade suficiente -, tenho vindo a receber as solicitações mais diversificadas. Até me telefonou um velho amigo da Coimbra dos anos sessenta, que andou pelo MDP/CDE nos meses solares da revolução, e que eu já não vejo vai para quase 30 anos, e que, soube-o agora por ele, dirige uma folha de província na Beira Alta, na órbita financeira dos caciques democratas do PSD. "Escreve-me qualquer merda, pá, tu nem escreves mal, e a gente pode nem concordar com vocês, mas vocês, comunistas, têm do 25 de Abril uma experiência que mais ninguém tem". Bem tentei escapar-me, que ando muito ocupado com a profissão, que ele corria o risco de os amigos não virem a gostar do que eu escrevesse, mas ele nada, não se comoveu, e até perorou qualquer coisa sobre a evolução, e sobre cartazes, e sobre a democracia, e eu, coitado de mim, não fui capaz ou não tive coragem para lhe dizer que não. Lá lhe mandei o texto, tarde e a más horas, com a esperança difusa de assim lhe fornecer o pretexto para que não fosse publicado... Mas verdadeiramente inesperado foi pegar no meu telemóvel, interromper aquele toque de chamada musical e parolo que nunca entendi como me caiu em sorte, e ouvir do outro lado "Estou a falar do «Mensageiro dos Pobres». O Doutor está?". O "Doutor" a que o «Mensageiro dos Pobres» se queria referir era certamente eu, e nada melhor do que este tratamento para ouvirmos com alguma atenção o que os outros têm para nos dizer. Mas que raio seria o «Mensageiro dos Pobres»?.. Cheirava a coisa antiga, por um lado, e, por outro, parecia-me contraditoriamente sofisticado que os pobres utilizassem um qualquer Mercúrio alado para fazerem ouvir os seus queixumes. Com tudo isto, seguiu-se um longo silêncio depois do "O Doutor está?". Pelo que o outro lado se viu na obrigação de continuar: "Lembras-te" passou do "Doutor" para o "tu"... -, "lembras-te dos tempos da JEC?". (A JEC, ensino eu aos católicos e ateus incultos de hoje, era a Juventude Escolar Católica, por onde andei no então Liceu Nacional de Angra do Heroísmo). E o outro lado não parava: "Agora sou pároco aqui em (...), sei que foste Deputado do PCP na Assembleia da República, quero que me escrevas umas linhas sobre o 25 de Abril para o nosso jornalzinho, o «Mensageiro dos Pobres», ou tu julgas que os padres são todos uns reaccionários?.., eu sei que continuas no PC e és um tipo aberto, manda-me lá qualquer coisa, olha que tem de ser curto, se não o povo não lê, e manda-me isso já, toma lá nota do endereço: (...). Recebe um grande abraço, a gente depois volta a falar... E antes que desligue: lembras-te de quando a PIDE andou atrás de ti e eu te encafuei na casa paroquial?.. Foi de mestre!". E desligou. O que é mais engraçado nisto tudo é que lá lhe enviei o texto - "umas linhas", como ele me pedira -, para o endereço que passei para o gravador do telemóvel, e ainda hoje não sei exactamente com quem falei. (Tenho dois ou três nomes hipotéticos na cabeça, mas prometi a mim mesmo que, se ele voltar a telefonar-me para o 31º aniversário, hei-de arrancar-lhe ao menos o nome. Já tenho projecto de vida com que me ocupar durante um ano). o 25 de Abril, como vocês estão a ver, é verdadeiramente uma data mágica. Mágica - mas não o bastante. Porque não me telefonam apenas a pedir-me textos. O António ligou-me, como o faz sempre nesta época, desde há 30 anos... O tom da voz é cada vez mais empastado e há palavras que tenho ano a ano mais dificuldade em perceber. Fala-me mais com silêncios arrastados, guturalizados de quando em vez com restos de gritos que ele próprio já não ouve. Disse-me, desta vez (ou sou eu quem inventa o que ele me quer dizer...): "Vem aí o dia da libertação, camarada. Tu, eu, o Xico, o Zeca Beirolas e o outro-António, o alferes, lembras-te dele?, temos de combinar beber umas cervejolas. No dia 24 acertamos, 'tá bem?". Já sei que, tal como nos 30 anos anteriores, eu e o António não nos vamos poder encontrar com os outros. O Xico, o Zeca Beirolas e o outro-António, o alferes, morreram na guerra em Moçambique, não houve para eles qualquer data libertadora. O meu amigo, este António que quase não consegue falar-me, é um sortudo, e a realidade há muito que já lhe não diz nada. O 25 de Abril é mágico - mas não o suficiente. 

José Fernando Araújo Calçada - 54 anos Inspector do Ensino Secundário Publicado na obra “30 anos de Abril, 30 textos”, Ed. Fórum