A revolução do 25 de Abril de 1974 trouxe a Portugal Liberdade, pondo fim a um longo período de Ditadura fascista de 49 anos. Após 1976 houve retrocessos graves no processo desta revolução, patrocinada por partidos reaccionários de direita tendo como aliados algumas famílias Fascistas. Portugal foi caminhando o trilho de uma sociedade capitalista, geradora de profundas injustiças sociais.



Neste blog iremos denunciar os sistemáticos atentados que todos os dias ocorrem às Liberdades, Direitos e Garantias que herdámos de homens e mulheres que lutaram para que fosse possível o maior acontecimento histórico do século xx em Portugal.



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Razão antes de tempo

Há uns bons meses atrás, se bem se lembram, o PCP alertava para a necessidade imperiosa de se proceder à renegociação da dívida, propondo inclusive ao governo que fossem desencadeados os necessários esforços nesse sentido. Fazia-o consciente de que os valores acordados eram totalmente incomportáveis para as finanças públicas, e que, face à situação actual, Portugal não iria ter como conseguir cumprir com os valores até aqui estabelecidos. Caiu o Carmo e a Trindade. A renegociação era uma tragédia. Essa alternativa era o colapso. O verdadeiro fim do mundo. Não haveria sobreviventes.

Propor a renegociação ou o reescalonamento da dívida não pode ser solução. Nos termos da vossa renegociação seria um corte ao direito dos credores. Não é uma questão de semântica: é tomar a decisão de incumprimento a título definitivo ou em prazo relativamente aos compromissos assumidos. Na prática está implícito o incumprimento do serviço de dívida. Entraríamos em ‘default’ com as graves consequências, como se provou na Argentina, e com poderoso efeito de contágio” dizia Paulo Baptista Santos do PSD. “Quem quer renegociar é quem não quer cumprir. (…) É um total irrealismo e irresponsabilidade. Pagar menos, durante mais tempo e ainda por cima sem cumprir os acordos anteriores” vociferava João Almeida do CDS. “É até perigoso porque o incumprimento nos meteria na lista negra a quem não se deve emprestar dinheiro. Era ficar fora dos mercados durante muitos, muitos anos. Seria muito mau” dizia Hortense Simões do PS, alinhando pelo arrazoado catastrofista da direita. ”Renegociar o memorando transmitiria imagem de desatino do país perante o exterior” disse há dias o nosso primeiro.

Todavia, como muita hipocrisia e cinismo, a questão volta a ser colocada na ordem do dia, desta feita por outros protagonistas. António Saraiva, por exemplo, já disse que “vai ter de ser“. Um relatório do Instituto de Finanças Internacionais revela que o cenário pode estar cada vez mais perto de se concretizar. O ministro Álvaro já lançou uma espécie de pré-aviso, bem ao jeito de José Sócrates quando este se abeirava do precipício e quando já não tinha mais que fazer à sua incompetência, dizendo que “estamos a fazer tudo por tudo para cumprir o acordo.” Este “fazer tudo” é já não ter nada para fazer, é a impotência perante as imposições, o reconhecimento implícito de que se falhou redondamente e que agora o que é preciso é emendar a mão. Antes ficássemos por aqui. O problema é que estas incompetências saem muito caro aos portugueses e ao país. Não fazem mossa a quem governa, nem aos sempre imunes grandes patrões deste país. Já sabemos quem paga e pagará. Já sabemos quem vai ser o pagador de tão grande e pesada factura. Já sabemos sobre quem é que vão recair mais impostos, menos direitos, mais sacrifícios neste e no próximo ano.

Estejamos, pois, atentos ao que acontecerá nos próximos dias ou nas próximas semanas. Vamos lá ver qual vai ser a “miraculosa solução” para o pré-anunciado incumprimento da dívida. Vamos lá ver o que “vai ser necessário” fazer e quem é que, mais uma vez, teve razão antes de tempo. É certo que ouvir-se-ão as hipocrisias do costume, as choradeiras do costume de comentadores e dos partidos da direita, fingindo que nada se disse, ou que o que se disse não era necessário antes, e que só é necessário agora. As balelas habituais com os protagonistas do costume. Felizmente, há quem se mantenha no lado certo. Ontem, como hoje.