A revolução do 25 de Abril de 1974 trouxe a Portugal Liberdade, pondo fim a um longo período de Ditadura fascista de 49 anos. Após 1976 houve retrocessos graves no processo desta revolução, patrocinada por partidos reaccionários de direita tendo como aliados algumas famílias Fascistas. Portugal foi caminhando o trilho de uma sociedade capitalista, geradora de profundas injustiças sociais.



Neste blog iremos denunciar os sistemáticos atentados que todos os dias ocorrem às Liberdades, Direitos e Garantias que herdámos de homens e mulheres que lutaram para que fosse possível o maior acontecimento histórico do século xx em Portugal.



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

"A normalização da anormalidade"

1. Eis uma história simples... O pai do Francisco morre inesperadamente e ninguém sabe como dar-lhe a terrível notícia. Até que surge um voluntário, o António, que, emboscando o Francisco à saída do trabalho, lhe diz: "Francisco, aconteceu uma tragédia, morreu a tua família toda!". O Francisco dá um grito sem som, e o António não espera mais: "Tem calma, pá, estou a brincar, não foi bem assim, morreu apenas o teu pai!". Com um ronco de alívio do tamanho da vida, o Francisco grita: "Ena, pá, que grande susto me pregaste, vamos mas é beber uns copos para festejar!".

2. É que há qualquer coisa que me está a escapar neste dia-a-dia em que fomos mergulhados. Leio no jornal que o governo decidiu o encerramento de mais 239 escolas do 1.º ciclo do ensino básico. Duzentas e trinta e nove escolas, por extenso, não haja confusões. Peço-vos que experimentem contar em voz alta de 1 até 239, e verificarão que no último terço da contagem a nossa voz começa a ficar entaramelada... Mas, tanto quanto o encerramento das escolas, incomodou-me – a acreditar nos jornais – a passividade com que ele foi aceite, por dirigentes das escolas, por docentes, por pais, por autarcas, com o extraordinário argumento de que, desta feita, tudo havia sido previamente acertado. Ora, estas 239 não constituem senão a última fatia – até agora – de um total de 3720 escolas encerradas desde 2005. Três mil setecentas e vinte! Contar em voz alta de 1 até 3720 deixa-nos seguramente sem fôlego – um reflexo fisiológico menor da brutalidade concretizada neste impiedoso e sistemático encerramento. Já nem falamos dos sérios inconvenientes que existem na substituição de uma escola humanizada, de pequena dimensão, próxima da família – tudo o que se recomenda, enfim, para crianças com estas idades –, por uma outra a quilómetros de distância, por vezes a muitos quilómetros, onde os alunos passam de pessoas a números, fruto de uma gestão cada vez menos pedagógica por força dos mega-agrupamentos.

3. O nosso país está a ser reduzido a duas faixas litorais: uma, a oeste, que se estende no sentido norte-sul, entre Viana do Castelo e Setúbal, com não mais de 40 km de profundidade, e uma outra, a sul, no Algarve, no sentido leste-oeste, com menos de 10 km de profundidade – não existem praias tão largas – e entregue à monocultura do turismo. (Devido à sua especificidade geográfica, não falo aqui da Madeira e dos Açores). Fora destas faixas, existem alguns enclaves: Évora, Viseu, Vila Real e, sem ofensa, pouco mais. Porque quando se encerram 3720 escolas, e esse encerramento é acompanhado pelo de maternidades, centros de saúde, valências hospitalares, tribunais, linhas de caminho de ferro, estações de correio, postos da GNR, esquadras de polícia – o que é que afinal está a ser encerrado? Ou, de outro modo, que país nos resta? Na definição de "país", até na componente estratégica da defesa, a ocupação do território é essencial – e nós não estamos a ocupar mais do que 30.000 dos 89.000 km2 do nosso território continental.

4. Ouço na televisão um sindicalista docente dizer, à saída de uma reunião com o Senhor Ministro da Educação e da Ciência: "Há possibilidades de não haver condições de sucesso para os alunos". Bem, eu sei que devemos ser cuidadosos com as palavras – mas tanto?!... Com as alterações curriculares, com o aumento do número de alunos por turma, com a constituição dos mega-agrupamentos, com o despedimento, no imediato ou a prazo, de milhares de professores (não dezenas de milhares, mas apenas [?] milhares), com a promessa feita pelo Ministério de que as melhores escolas (o que quer que isto queira dizer) poderão vir a contratar mais professores (quando qualquer pessoa de bom senso pensaria que, a existir essa possibilidade, ela se destinaria às escolas mais problemáticas), com a instabilidade e a insegurança instaladas na vida profissional, pessoal e familiar dos docentes por meio de uma brutal guerra contra eles desencadeada pelo Ministério, concretizada no bombardeamento das escolas com sucessivas e contraditórias orientações sobre a vinculação e os concursos – e não se diz mais do que "Há possibilidades de não haver condições de sucesso para os alunos"?!... Uma frase que é exactamente o mesmo que nada dizer.

5. A anormalidade já está normalizada?...

José Calçada (texto publicado no Público)